12 de novembro de 2008

está morto, felizmente.

O POETA PROPÕE SEU EPITÁFIO

Por ter mentido muito ganhou um céu
mesquinho, a ser refeito todos os dias.
Por ser traidor até com a traição, era amado
pelas pessoas honradas.
Exigia virtudes que não dava
e sorria para esquecerem.
Não viveu. Viviam-no, um corpo inpiedoso
e uma cadela sedenta, Inteligência.
Por só acreditar na beleza, foi
lixo entre os lixos,
mas ainda olhava para o céu.
Está morto, felizmente. Já deve haver
algum outro como ele.

Julio Cortázar